Falar sobre partidos nunca é uma missão grata quando se
tenta seguir pela imparcialidade, pois é de sua natureza intrínseca o todo
social, as questões mais profundas da sociedade, sejam programáticas ou mesmo
morais.
Qualquer um que se identifique com algum partido o faz por
achar que esse é o que reúne a maior parte de suas ideias, posições
filosóficas, econômicas, culturais, políticas e morais. Existem também aqueles,
cada vez em maior número, que o escolhem por cálculos utilitaristas e
pragmáticos, e que divergem ou ignoram qualquer parte do programa partidário.
mas tanto um como outro defendem o partido ou como parte de si ou como algo
valioso para o sucesso próprio.
Então, falar mal de um partido agrada a alguns, mas cria
ódio em outros. E falar mal de todos os partidos, além de senso-comum, cria
ódio em muitos. Por isso, um pouco de paciência e longanimidade ao ler este
artigo.
Estes dias a ex-senadora Marina Silva, terceira colocada nas
últimas eleições presidenciais com mais de 20 milhões de votos, anunciou
oficialmente que está fundando um novo partido, o Rede Sustentabilidade (caiu a
obrigatoriedade de ter "partido" no nome, vide o DEM). Na verdade, é
só um anúncio de uma intenção, que deverá ter a coleta de mais de meio milhão
de assinaturas no país e tantos por cento em alguns estados, enfim, como pede a
legislação, e nada diferente do que ela vem prometendo há pelo menos dois anos
quando saiu do PV.
Mas o que me surpreendeu foi a corrida para execrar o
partido, advinda da esquerda fashion, da esquerda laissez faire, da esquerda oitocentista
(aquela que ainda quebra as máquinas e não elege ninguém) e mesmo da direita
estabelecida. Os adjetivos mais comuns eram de "conservadores"
"falsos capitalistas" ou "liberais enrustidos" advindos da
esquerda e de "demagógicos" e "irreais" advindos da
direita.
Longe de mim vir advogar por algo que nem existe e nem sei o
que será de fato. Li pouco sobre suas teorias, filosofias ou bases de
sustentação para sair atacando ou defendendo. Minha preocupação não é com o
Rede em si, mas com os demais, e como reagiram.
Há cerca de 2 anos surgiu o PSD, partido criado de
dissidência do direitíssimo DEM (ex PFL, Arena) e que recebeu vigorosa adesão
de políticos da esquerda, direita, centro, oposição, governo, etc. Todos cabiam
no partido que se autodeclarava sem posição política e que não tinha dedos em
levantar bem alto a bandeira do fisiologismo e da "velha política".
Esse partido portanto não tinha ambições sociais, projeto de nação, posição ideológica
ou mesmo fato novo algum para oferecer, era meramente e assumidamente um
cartório eleitoral, uma zona franca para rearranjos de poder e carguismo.
Quantos bateram nele? Um aqui, outro ali, logo tolidos por
suas direções pois por mais indecentes que fossem as "bandeiras" do
PSD, elas eram realíssimas e valiosíssimas na política partidária nacional.
Elas são o plano real, pragmático e não romantizado que a maioria dos partidos
escondem por trás de siglas e falsas ideologias.
As direções partidárias contiveram a indignação de suas
bases pois reconheciam bem que este partido não representava nenhum tipo de
perigo ideológico, mas sim um perigo burocrático. Não era o tipo de partido que
roubaria eleitorado, mas o tipo que ganha o poder pelos bastidores se não ficar
atento. portanto, nada de bater, vamos cooptar, coligar, aproveitar o
escancarado fisiologismo, pois ele nascia desprendido de amarras éticas de se
aliar com a esquerda aqui e com a direita ali. Era o sonho de qualquer governo,
de qualquer instancia, um aliado esponja.
Já o Rede é o contrário. É um partido novo que não pretende
declaradamente disputar os porões do poder, mas que se pretende protagonizar no
embate eleitoral e ideológico, seja lá qual for sua classificação neste
espectro. É um partido antes de tudo de causas populares, ou melhor, simpáticas
ao cidadão médio: moralismo, ascetismo político, ética, economicismo, realismo
(nada de divagações doutrinárias e ideológicas) e liberal (no sentido da
liberdade individual de pensar).
O Rede ainda não existe e é difícil de saber se tamanhas
mudanças são conciliáveis com um partido dentro do nosso sistema eleitoral. Difícil
saber como no mundo das ações se comportará esse partido do mundo das ideias.
Mas uma coisa é clara: ele protagonizará de alguma forma, se medirmos pela repercussão
e engajamento em atacá-lo advindo dos demais partidos. Aliá esse é seu
objetivo. talvez marina tenha até gostado dos ataques sofridos daquilo que ela
chama de velha política.
Em alguns meses devo me enfronhar com denodo na construção de
minha monografia sobre os dilemas da representação política e sobre os limites
e as questões que envolvem os grupamentos humanos e de ideias chamados partidos
políticos. Mas certamente acompanharei a formação deste "partido" com
interesse acadêmico. Me parece, repito, propor algo inexequível dentro do atual
sistema legal e cultural da nossa política.
Mas, levantado temas tão polêmicos como a sublimação da
dicotomia esquerda x direita, disposto a se debruçar sobre bases tão profundas
como os processos e hábitos de consumo e produção e declaradamente empenhado em
ressignificar a intermediação de poder pela representação política no objetivo
de resgatar a gênese do direito individual ante o coletivo, o Rede é um
experimento das ciências políticas espontâneo e não analisá-lo como cientista
social por restrições ideológicas e partidárias seria um grande erro.
Minimamente ele trará para o debate questões cruciais que
exporão o anacronismo de nossa política atual que nenhum outro partido,
seguindo a cartilha existente, poderia fazer. Talvez ele não colha frutos na
política atual, mas lance base para debates que apontarão a política futura, ou
como dizem alguns antropólogos à exaustão: um novo olhar com novas lentes sobre
a mesma questão, até agora invisibilizada pelo método em uso.





